sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A insustentabilidade do conceito de desenvolvimento sustentável na sociedade contemporânea


Desde que cientistas, estadistas, jornalistas, civis e militantes das causas ambientais se reúnem em conferências para debaterem as alterações nas ocorrências de eventos naturais, muito se tem especulado sobre as causas destas modificações e suas implicações futuras. Evidenciar a participação do setor industrial numa margem de conseqüências ambientais é comum. Mas outro polêmico debate acerca das possibilidades de desenfrear o agravamento dessas conseqüências também é convencional – desenvolvimento social e econômico sustentável é o atual modelo em discussão nesse processo.

O conceito de desenvolvimento sustentável se fundamenta no crescimento social, econômico e cultural da raça humana, de forma que os recursos do planeta, as espécies e seus habitats sejam preservados e as gerações futuras tenham garantia dessa preservação ecológica, segundo Relatório Brundtland (1983), da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, da ONU. Para que o crescimento destas três instâncias seja possível, portanto, o meio ambiente deve ser explorado com legítima responsabilidade, ética e uso consciente e planejado dos seus recursos. A questão, nesse caso, reside em como respeitar essas diretrizes numa sociedade contemporânea consumista.

Esse consumismo contínuo e exagerado faz parte de um modelo de mercado especulativo que tem como meta o lucro. Isso se agrava ainda mais quando considerada a acirrada competição entre os protagonistas da forma capitalista de enriquecimento, as indústrias e empresas e seus patronos. Ora, a própria relação entre preservação e desenvolvimento é incoerente e não se sustenta porque de fato presume-se que o crescimento exige custos altíssimos justamente sociais, econômicos, culturais e, sobretudo, nos tempos modernos, ambientais. Não é à toa que um dos fatores pelos quais à humanidade sempre buscou o desenvolvimento calcado no princípio de otimização de suas tarefas diárias.

É nessa perspectiva que a insustentabilidade do conceito de desenvolvimento sustentável é confrontado com os costumes de negócios e consumo modernos. Agora, se é possível amenizar os ricos iminentes que ameaçam os recursos naturais e espécies, inclusive a humana, isso sim. Gerir uma relação salutar com o meio ambiente é possível. Isso se legitima no uso consciente de bens renováveis dispostos no ecossistema do nosso planeta. Aderir a esse parâmetro de desenvolvimento irá custar o mesmo esforço gasto na exploração predatória do meio.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Communications Revolution (1966)

Marshall Mcluhan completaria 100 anos em 2011. Se estivesse vivo, veria as transformações pelas quais a maneira de se comunicar passou. Para compreender essas mudanças é necessário discorrer sobre sua principal teoria, a da Aldeia Global. Não só aí está sua contribuição científica acerca da comunicação. Sobretudo as conseqüências sociais e culturais decorrentes da aproximação virtual de pessoas através de aparelhos tecnológicos surgidos com o avanço da telecomunicação.

A expressão Aldeia Global de Mcluhan é fundamentada no conceito de Consciência Global de Teilhard de Chardin, segundo o qual o indivíduo que percorria o mundo, carregava uma consciência que podia ser compartilhada com outros e assim gerar ações comuns. A partir desse conceito, Mcluhan vislumbrou a legitimação desse compartilhamento de consciência e mobilização social potencializados pelos meios de comunicação. Alterando, portanto, a percepção de tempo e espaço.

Mcluhan também cunhou a conhecidíssima expressão “o meio é a mensagem” para segmentar o modelo e o conteúdo da mensagem, adaptada a cada forma de se emiti-la. Segundo o profeta da internet, como foi batizado, o que define a mensagem é o meio pelo qual se dará sua emissão. Mcluhan via os meios técnicos como extensões do corpo humano, apoiado nessa percepção, a mídia seria uma extensão da nossa capacidade comunicativa.

O filósofo canadense é considerado o profeta da internet pela genialidade de ter pensado aonde chegaria a comunicação dos cidadãos através de meios técnicos. Apesar de cibercultura não ter sido a expressão usada pelo Mcluhan, naquela época essa mobilização interativa já havia sido evidencia pelo profeta. No ciberespaço, a partir da conexão entre hábitos sociais, culturas e formas de relacionamento humano e tecnologias digitais, aqueles são alterados.

O ciberespaço possibilita a concessão cultural de livre produção e compartilhamento de informação entre os cidadãos. Isso modifica profundamente a maneira pela qual o indivíduo organiza suas e difunde suas idéias. A passividade dá espaço a exigências de interação e dinamismo na troca dessas informações.

Marshall Mcluhan deixou importantes contribuições para o campo das pesquisas em ciências da comunicação. Sua preocupação pedagógica com o processo comunicacional entre humanos e aparatos tecnológicos e entre humanos mediados por estes aparatos o impulsionaram no permanente desejo de compreender este relacionamento e na busca pela otimização da comunicação.

Mais cômico que a morte?


Mais Denso que Sangue de Ian Abe é rodado em Cabaceiras e faz metáfora com apóstolos de Cristo.


Recentemente lançado em Campina Grande, no agreste paraibano, Mais Denso que Sangue (Ian Abé, 2011) é uma daquelas narrativas cinematográficas que pretendem surpreender quem o assiste, mas boas risadas não atrapalham o esbugalhar de olhos que não piscam fixos na tela. Para vê-lo, por enquanto, só em festivais. O filme chega numa fase em que o cinema da Paraíba está mais ativo do nunca, e premiado.

Premiação, aliás, é a conquista nacional de Fabiano Raposo (foto) que vive um forasteiro em Cabaceiras, no interior do estado, no curta-metragem. Quem o assiste, logo no primeiro minuto é surpreendido por o som de um tiro. Ainda não há imagem e a trama prende os olhares desde então. O forasteiro testa a arma e a carrega novamente. Já à noite pega um ônibus para Cabaceiras e desembarca num conflito consigo mesmo, parece ter planejado sua ação muito bem. Nas estreitas ruas da Hollywood nordestina, o forasteiro acompanha uma procissão que verá uma encenação da ceia bíblica, em que Jesus divide comida e bebida com seus apóstolos, na praça da cidade.

Enquanto o telespectador dá boas gargalhas com o teatro pitoresco, feito com vozes gravadas, repentinamente o forasteiro aparece no vídeo e acaba o clima descontraído da cena, nos levando a pensar o que pode acontecer numa praça de uma pequena cidade do interior e um homem armado na platéia. Ação! Aqui o diretor e roteirista, Ian Abé, dá vida a tragicômica narrativa. Seus onze apóstolos e seu Jesus Cristo correm desgovernadamente em motos velhas e barulhentas em busca de vingança. Trilha sonora em alto som. Perseguição e tiros de armas de fogo compõem as cenas de ação, que tanto impressionam pela produção e precisão nos cortes de edição, como geram risos pela metáfora do divino/ilegal.

E para finalizar, que tal relembrar o far west? É o que propõem o Jesus de Mais Denso que Sangue e o forasteiro em Cabaceiras. A morte está sempre presente, norteando o suspense da narrativa e em Mais Denso que Sangue quem ainda não viu graça ou se surpreendeu até então, no confronto entre Jesus e o forasteiro tudo é possível. O que seria mais denso que o sangue, o cômico ou o trágico?